Segunda, 18 Janeiro 2010 09:51
«Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura…»
O tempo que nos é dado, é a oportunidade para descobrirmos o rosto de Deus, de reler a História e a nossa história no seu olhar e de perceber o Seu amor. Para entrar nesta dinâmica, que nos distancia dos nossos preconceitos e do cansaço do dia-a-dia, devemos escutar e meditar na Palavra que nos converte, acolhermos o testemunho de quem, como Lucas, graças à pregação de Paulo, conheceu a misericórdia de Cristo e dela fala.
O Evangelho deste Domingo apresenta-nos duas partes bem distintas: o prólogo do Evangelho de S. Lucas e o discurso de Jesus na sinagoga de Nazaré.
A essência do texto bíblico, é que se tome consciência de que o Evangelho é muito mais que uma recolha de factos mais ou menos importantes da vida de Jesus e dos seus ensinamentos. E Lucas quer-nos alertar para isso. A sua intenção é que os cristãos se convençam da importância decisiva para a história de toda a Humanidade, a vida de Cristo. Lucas entra na dinâmica do testemunho e escreve com muito rigor e solidez os ensinamentos recebidos.
Assim, na segunda parte, encontramos Jesus na sinagoga de Nazaré, a proclamar que todas as profecias se cumprem: Ele é o Messias, o Ungido, Aquele que anuncia aos pobres a felicidade, que liberta os oprimidos e inicia «um ano da graça do Senhor». O Hoje da história do tempo de Jesus, é o Hoje da Igreja, de cada comunidade que vive sob a acção do Espírito Santo.
Evangelho segundo S. Lucas (1, 1-4; 4, 14-21)
«Já que muitos empreenderam narrar os factos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram os que, desde o início, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, também eu resolvi, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, escrevê-las para ti, ilustre Teófilo, para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado. Naquele tempo, Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos. Foi então a Nazaré, onde se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-se para fazer a leitura. Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir, encontrou a passagem em que estava escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor.” Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Começou então a dizer-lhes: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir.»
SEGUNDA FEIRA
PALAVRA
Já que muitos empreenderam narrar os factos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram os que, desde o início, foram testemunhas oculares e ministros da palavra...
Lucas começa por dizer o modo como compilou o seu Evangelho e quais as suas intenções. A sua introdução é uma obra de arte, e baseando-se em alguns esquemas históricos do seu tempo, recorda-nos que se documentou, que escutou testemunhos e procurou nas fontes. É um homem que dá credibilidade científica porque estudou e tem uma atitude crítica perante as informações que quer transmitir. O Evangelho é um facto, um conjunto de factos e acontecimentos que aconteceram na nossa história e dos quais temos conhecimento de testemunhas directas que viram com os seus próprios olhos, escutaram com os seus próprios ouvidos, e tocaram com as suas mãos (cfr. Jo 1,1)
MEDITAÇÃO
Todos sabemos como a cultura contemporânea olha com suspeita e de modo superficial para a fé e para o cristianismo. E possivelmente também nós. Estamos convencidos de que a fé é útil, mal também não faz, mas não passa de uma pia devoção. O Evangelho é um livro religioso, Jesus uma figura maravilhosa, mas tudo se confunde: moral, fábulas, doutrina, invenções. Mas sejamos sinceros connosco mesmos: o problema é a preguiça; o problema é o esquecimento: não nos interessa a interioridade, não investimos nem acreditamos.
O convite é que tomemos a sério a nossa fé, que dediquemos tempo à preparação e que tomemos consciência de que a fé vai alimentada, informada, compreendida e averiguada. Sim, porque a fé nasce do testemunho de quem viu e acreditou.
ORAÇÃO
Senhor,
que a Tua Palavra toque o meu coração,
para que o Evangelho
afaste as nuvens do pessimismo e do cansaço
e traga a certeza do Teu amor.
Cria em mim,
o silêncio para escutar a Tua voz,
penetra no meu coração com a espada da Tua Palavra,
para que, à luz da Tua sabedoria,
possa avaliar as coisas terrenas das eternas,
a ser livre e pobre pelo Teu Reino,
testemunhando ao mundo
que Tu estás vivo no meio de nós,
como fonte de fraternidade, de justiça e de paz. Amén.
(Anónimo)
ACÇÃO
No tempo que me é dado, procurarei momentos de formação bíblica, não na óptica de pôr tudo em causa, mas na óptica de um caminho de fé.
TERÇA FEIRA
PALAVRA
...também eu resolvi, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, escrevê-las para ti, ilustre Teófilo, para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado.
Lucas revela-nos a sua seriedade de historiador, que confirma a fé pela qual se deixou envolver. Bem documentado desde as origens, ele redige com rigor para o seu ilustre destinatário, Teófilo, que por bela coincidência quer dizer «amigo de Deus», a fim que possa avaliar a fortaleza da sua fé.
MEDITAÇÃO
O mundo precisa de pessoas como Lucas: decididas e sem medo em testemunhar a fé em Cristo. Nos dias que decorrem, muita gente não acolhe o Evangelho como deve ser acolhido, por isso, não é bem entendido. É mais fácil dizer que são textos complicados, que não se percebem, têm uma linguagem que não se adequa aos nossos tempos, que é tudo invenção. E o «Teófilo» de hoje, somos nós. Contudo ainda colocamos a questão: o que é o Evangelho de Jesus? A resposta é simples: são escritos bem documentados da história de Jesus de Nazaré, fruto de investigação e de testemunhos credíveis; o conteúdo anuncia a libertação prometida pela Escritura e levada a cabo por Cristo, Ele o Enviado de Deus, consagrado pelo Espírito. São escritos úteis, para nós, cristãos, que medimos a nossa vida pela Palavra, para que tenhamos conhecimento seguro do que nos foi ensinado.
ORAÇÃO
Senhor, quando a vergonha me impede de anunciar-Te,
Senhor, tem piedade de mim.
(pausa- silêncio)
Senhor, quando o pudor tenta contra
a minha liberdade interior,
Senhor, tem piedade de mim.
(pausa- silêncio)
Senhor, quando procurar um posto de glória,
e fizer tudo para obter aplausos,
Senhor, tem piedade de mim.
(pausa- silêncio)
Senhor, quando não acolher a Tua graça
no hoje da minha vida,
Senhor, tem piedade de mim.
(pausa- silêncio)
Senhor, quando não receber a Boa Nova
e não viver com esperança
Senhor, tem piedade de mim.
ACÇÃO
Hoje, sentindo-me interpelado pela Palavra de Deus, escrevo a minha meditação e partilho com alguém, entregando-lhe escrita num postal.
QUARTA FEIRA
PALAVRA
Naquele tempo, Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos.
Depois de ser baptizado por João Baptista no Rio Jordão, das tentações vividas no deserto, eis que Jesus volta para a Galileia, com a força do Espírito. O Espírito consagrou-o instrumento definitivo de salvação que age no hoje da história. Inspirado pela Sua presença falava como quem tem autoridade (diferente da dos escribas) e a sua fama rapidamente se espalhou pela região. Ensinando nas sinagogas pregava com a convicção de quem não se prega a si mesmo, mas a Boa Nova.
MEDITAÇÃO
De facto é Jesus quem ensina como fazer o anúncio da Boa Nova, do Evangelho. A sua acção torna-se um facto público e recebe elogios de todos. Com a força do Espírito, também nós somos chamados a levar a Boa Nova do Reino. Hoje, com todo o meu ser, corpo, alma e mente, com o meu agir e o meu dizer, o Reino está aqui, entre nós, inicia a sua acção libertadora de qualquer forma de mal e de escravidão. Somos instrumentos do Espírito; do Espírito que recebemos no Baptismo e nos tornou filhos de Deus, filhos muito amados. Hoje, toca a nós: alcançados pela Palavra, impelidos pelo Espírito e tocados pelos gestos de Cristo, anunciamos com convicção a feliz notícia da salvação.
ORAÇÃO
Senhor Jesus,
Tu és a Boa Nova para o meu coração inquieto
que procura paz.
Tu és o Messias, e já chegaste.
A Palavra que chegou
aos meus ouvidos, aqui e agora,
tornou-se realidade.
Tu és o Hoje da misericórdia de Deus,
dentro da banalidade
e insignificância dos meus dias.
Senhor Jesus,
que eu seja capaz de testemunhar
o fascínio da Tua presença,
mesmo no meio das forças da oposição.
Ensina-me a caminhar
com confiança,
como Tu caminhaste
pelas estradas da Galileia,
conquistando o espaço
de uma inigualável liberdade. Amém.
(Anónimo)
ACÇÃO
Hoje, proponho na minha família ou comunidade, a renovação das promessas baptismais. Na dificuldade de concretizar, procuro a ajuda de algum sacerdote, catequista ou religiosa.
QUINTA FEIRA
PALAVRA
Foi então a Nazaré, onde se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-se para fazer a leitura.
Jesus regressa à terra onde passou a maior parte da sua vida e que O viu crescer. As pessoas conheciam-n’O, pelo menos pensavam conhecê-l’O. Jesus volta para o meio das pessoas que o viram fazer-se homem. E como era costume, dirige-se à sinagoga, e por sua iniziativa levanta-se para fazer a leitura, para proclamar uma mensagem.
MEDITAÇÃO
É interessante pensar que foi na terra que O viu crescer, Nazaré, que Jesus inicía a sua missão e dá a conhecer o seu programa, toda a sua actividade. É preciso dar o pontapé de saída para que as profecias se comecem a realizar. Realizar-se-á o sonho do povo israelita. Jesus o concretizará com a sua presença, uma presença divina. Ele é o «sim» de Deus ao grito do homem que procura ajuda, é o cumprimento dos empenhos assumidos por Deus para com o seu Povo. Jesus, é o «sim» de Deus na nossa existência; em nós Ele proclama e é a Palavra a realizar-se, a cumprir-se para nos salvar. Ele vem à nossa “terra”, entra no santuário do nosso coração, levanta-se e fala; liberta o coração, transforma a nossa vida e o nosso destino, abrindo-o à comunhão com Deus.
ORAÇÃO
O Senhor concede-me a alegria da Tua Palavra e do meu acreditar em Ti:
A Tua Palavra anima a alma, alenta, gera confiança, torna-me forte.
A Tua Palavra é verdadeira, porque manifesta tudo o que verdadeiramente conta na vida de cada pessoa, manifestando-lhe a sua verdadeira natureza de filho de Deus.
Uma palavra límpida porque ilumina o olhar, fazendo com que o homem veja a realidade com os olhos de Deus, veja a vida, assim, como Deus a contempla e avalie cada coisa com a sabedoria do Altíssimo.
As tuas palavras, Senhor, são espírito e vida. (Oração de um sacerdote)
ACÇÃO
Se a Palavra se cumpre no hoje da minha vida, farei um pequeno projecto: tentar saber se existe na minha área de residência ou de acordo com o pároco ou outras organizações de solidariedade, pessoas que moram sozinhas ou doentes. Como voluntário oferecer-me-ei para prestar o meu serviço e partilhar um pouco do meu tempo com essas pessoas.
SEXTA FEIRA
PALAVRA
Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir, encontrou a passagem em que estava escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor.”
Na sinagoga entregam-lhe para ler o livro do profeta Isaías e escolhe a passagem em que o profeta anuncia o regresso do Povo de Israel do exílio da Babilónia. Uma passagem de libertação, de regresso a casa, de alegria que volta à vida dos israelitas.
MEDITAÇÃO
Naquele dia, naquela sinagoga, Jesus limita-se, a partir das profecias, a abrir os olhos aos seus conterrâneos. O tempo da espera terminou. O tempo de Deus e o seu amor para com a humanidade manifestar-se-ia nos gestos e palavras de Jesus de Nazaré. Citando Isaías, Jesus declara que é o Messias esperado. Ele é o vértice de uma longa revelação divina, de um progressivo expôr-se de Deus na história dos homens, para revelar o Seu Rosto misericordioso e conceder a todos a salvação. Este é o nosso Deus: age em nós pela força do Espírito, mesmo “vestido” de ritos e palavras humanas, Ele age sacramentalmente em nós. A sua Palavra e a sua presença sacramental na nossa existência, redime-nos, ilumina-nos, restitui-nos a liberdade e concede-nos um ano da graça do Senhor.
ORAÇÃO
Ò Pai, Tu és grande
e nos queres bem,
por isso enviaste Cristo,
Rei e Profeta,
para anunciar aos pobres
a feliz notícia do teu Reino,
faz que a Sua Palavra
que hoje ecoa pela Igreja,
nos edifique em um só corpo
e nos faça instrumento
de salvação.
Com a Tua graça,
possamos ser testemunhas credíveis,
formados pela Palavra Viva. Amém.
ACÇÃO
Seria um bom projecto de caminho na fé e vivência da mesma, procurar formação na linha da compreensão dos sacramentos. Assim, acolheria a essência de cada um e possivelmente viveria com mais fervor a presença de Deus na minha vida.
SÁBADO
PALAVRA
Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Começou então a dizer-lhes: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir.”
Normal que Jesus tivesse lido a passagem de Isaías. Normal que depois de feita a leitura se preparasse para dizer algo acerca da mesma. Lucas, como bom redactor, descreve com perícia os movimentos de Jesus: enrola o livro, entrega-o ao ajudante e senta-se. Podemos imaginar o silêncio que pairava naquela sinagoga. Os olhares fixaram-se n’Ele, na expectativa de uma explicação, mas Jesus remata, para surpresa de muitos: Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir. Jesus anuncia que as promessas feitas por Deus, através dos profetas, se cumprem n’Ele.
MEDITAÇÃO
Jesus, como Salvador, é a essência dos Evangelhos e Ele proclamará isso desde o início da sua actividade. A Boa Nova é fonte de alegria interior para quem descobre o amor de Deus e a ele se abandona, porque sabe que Ele oferece um projecto de vida que vai para além dos nossos sonhos e conquistas, é um projecto de eternidade. Quem encontra Jesus recebe a libertação, vê segundo a Sua óptica, recomeça, crê e confia. Para quem acolhe a mensagem é um ano de graça. Muitos de nós, assim como alguns no tempo de Jesus, pensarão: utopias e ilusões, condenados ao fracasso…puros sonhos! Não, a Palavra cumpre-se hoje, porque Jesus é salvação para mim, para ti, para cada um que existe à face da terra. A única condição: acreditar n’Ele, no poder do seu amor. Deste modo, se a Palavra se cumpre no hoje da nossa existência, com Ele seremos canais e sinais do Seu Amor. O acolhimento e a vivência dos sacramentos é o cumprimento da vida de Deus no hoje da nossa história. Alinhemos a nossa vida – pensamentos, palavras, atitudes- ao nível da Palavra de Deus.
A Palavra que hoje se cumpre, confia-nos uma missão:
Levar o anúncio a todos os homens que esperam a feliz notícia de um Pai que os ama;
Levar a Luz verdadeira onde reinam as trevas das falsas ideologias, dos falsos misticismos, ocultismos e magia que pensam saciar a sede de infinito do coração humano;
A quebrar as cadeias que escravizam o homem dos nossos tempos;
Lutar, mesmo pagando com a vida, por um mundo mais justo e solidário, onde cada criatura tenha a garantia de uma vida digna.
ORAÇÃO
Senhor Jesus,
que o meu coração conheça a Tua santidade,
que eu veja a glória do Teu rosto.
Do Teu Ser e da Tua Palavra,
do Teu agir e do Teu designío
faz-me chegar à certeza
de que só a verdade e o amor
me podem salvar.
Tu és o Caminho, a Verdade e a Vida,
és o Princípio da nova criação,
dá-me ousadia para testemunhar,
fidelidade que persevera,
confiança que recomeça sempre
cada vez que tudo parece desmoronar.
Amem.
ACÇÃO
A Palavra de Deus não são velhas histórias do passado. A Palavra de Deus revela muitas atitudes que como cristãos devemos valorizar e viver no dia-a-dia. Recordo algumas e faço passar à vida: acolher quem se sente triste, visitar algum doente, dar o primeiro passo para perdoar, acolher a diversidade de culturas, rezar, dar um pouco do meu tempo a alguma causa de solidariedade… viver bem os sacramentos, agradecer pelo bem que se faz, apelar e lutar pela justiça, ajudar emigrantes, partilhar os bens e os dons que tenho … fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que Deus aconteça no hoje da humanidade.
Ir. Anabela Silva fma
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