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Eucaristia, fonte e cume de evangelização

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1.Introdução. “Brilhe a vossa luz”: Deus chama-nos das trevas para a sua luz admirável para anunciarmos a Sua salvação. A vocação cristã à comunhão com Deus está orientada à missão. A missão faz parte integrante da vida cristã. Devemos sentir com mais intensidade a responsabilidade pela missão quando a prática cristã parece recuar, como acontece actualmente.

No século XX, a Igreja toma consciência da descristianização do mundo moderno e procura renovar-se para o evangelizar. O Concílio Vaticano II é um dos passos mais importantes para renovar a Igreja de forma a evangelizar a cultura descrente que se verifica no Ocidente, sobretudo após as grandes guerras. Em vez de lamentar e condenar o mundo, como na época anterior, a Igreja do Concílio adopta uma atitude diferente, vai ao seu encontro, numa atitude de abertura, de escuta e de diálogo. Procura conhecer as questões e interrogações do homem actual em ordem a apresentar o evangelho como uma boa nova que responde aos problemas reais.

A renovação da Igreja no Concílio chegou primeiramente à liturgia e desta acção irradiou para muitos outros âmbitos e actividades da Igreja: catequese, pregação, vida comunitária, participação dos leigos, evangelização, etc. A renovação litúrgica, a mais profunda dos vinte séculos da história do cristianismo, integra-se, portanto, na preocupação evangelizadora. O crescimento e a renovação da vida cristã está associada à renovação da liturgia e a renovação da liturgia, por sua vez, reflecte-se nas outras acções eclesiais que a preparam ou continuam e irradia para a evangelização do mundo. Assim afirma a Constituição Conciliar sobre a Liturgia (Sacrosantum Concilium, SC): “A liturgia, ao mesmo tempo que, dia a dia, edifica os que estão dentro para serem templo santo do Senhor, morada de Deus no Espírito, até à medida da plenitude de Cristo, também, de modo admirável, aumenta as suas forças para anunciarem Cristo e, assim, apresenta a Igreja aos que estão fora dela como sinal erguido diante dos povos” (SC 2). A liturgia não termina, portanto, no final da celebração mas envia em missão: “Ide em paz”, ide construir o reino de Deus que é paz, justiça, amor.

A própria celebração em si mostra a Igreja como congregação de fiéis. É a manifestação da Igreja mais significativa; e a Igreja é sinal de Cristo. Pela liturgia, o próprio Cristo é erguido como sinal de salvação perante o mundo como Moisés levantou a serpente no deserto (Jo 3, 14-15). O contacto com a liturgia devia despertar naqueles que, apesar de afastados, aparecem uma vez ou outra, um maior interesse pela fé cristã e motivar para um conhecimento mais profundo e para uma prática mais fiel do evangelho. Poderá a liturgia contribuir a despertar a fé nos não crentes? A celebração da Eucaristia chama para ir à missa?

A realidade pastoral não tem sido muito animadora. A liturgia renovou-se, a partir dos anos 1965 e despertou a início grande entusiasmo. Mas, a partir dos anos oitenta, nota-se, em muitas Igrejas, a diminuição de participantes dominicais, sobretudo de crianças e jovens. A população diminuiu e a percentagem de praticantes recuou. Não foi devido, certamente, à renovação da liturgia mas à cultura agnóstica, à dispersão, ao comodismo. De qualquer modo, não se verifica que a liturgia renovada tenha provocado um dinamismo evangelizador. Algumas correntes conservadoras querem até voltar à liturgia antes do Concílio, como se esta desse mais garantia de fidelizar os participantes.

Levanta-se, assim, a questão: Como pode a nossa liturgia evangelizar as crianças, os jovens e os adultos? Se celebrarmos bem, fazemos avançar a evangelização. Se evangelizarmos com mais zelo, tornamos mais vivas e mais participadas as nossas assembleias.

É esta relação profunda entre liturgia e evangelização que me proponho reflectir convosco. Depois, como conclusão, vamos tentar descobrir alguns caminhos para renovar a liturgia de modo a torná-la evangelizadora.

1. Revelação por acontecimentos e pela Palavra

Vamos aprender, a partir das fontes da nossa fé (Sagrada Escritura, Tradição e Magistério do Vaticano II), que evangelizar não é apenas proclamar de viva voz que Deus é Salvador. Os gestos e as imagens desempenham uma função fundamental na evangelização.

a) Sagrada Escritura e Tradição. Na Sagrada Escritura Deus revela-se por acontecimentos e por palavras. Por exemplo, a lei de Moisés, no Antigo Testamento, não é apenas um corpo de normas para vida religiosa dos hebreus, não consta somente de palavras. Como referência fundamental narra o Êxodo, um acontecimento fundamental, a experiência de libertação do Egipto. Ao sair do Egipto, onde eram escravos explorados, os hebreus experimentaram a mão forte de Deus que os fez sair de um país poderoso, os protegeu, fez que passassem a “pé enxuto” o Mar Vermelho, acompanhou-os na travessia do deserto, concedeu-lhes o Maná e a água do rochedo. Nestes vários acontecimentos descobriram Deus como protector e prepararam-se para estabelecer com Ele uma Aliança. Na mesma linha, a narração da Aliança com Deus no Sinai, feita pela mediação de Moisés, integra factos, símbolos e palavras. Por exemplo a conclusão da Aliança (em Êxodo 24, 3-8). Santo Ireneu comenta assim: “Deus educava um povo sempre inclinado a voltar aos ídolos (deuses visíveis e próximos da realidade da vida deles), dispondo-o, por meio de múltiplas graças, a perseverar no serviço de Deus, chamando-o pelas coisas secundárias às primordiais, ou seja, pela figura à realidade, pelo temporal ao eterno, pelo carnal ao espiritual, pelo terreno ao celeste (…). Moisés aprendeu a guardar as palavras de Deus, os sinais celestes, as imagens espirituais e as prefigurações das realidades futuras”.

Jesus continua a mesma pedagogia: evangeliza pelos gestos e pela palavra. Vendo os seus gestos (Mc 1, 27) na sinagoga de Cafarnaum, as pessoas maravilham-se com tal doutrina. Na vida de Jesus notamos como a pregação esclarece o que o gesto realiza. Por exemplo, cura o cego e depois apresenta-se como a luz do mundo. Jesus é a Palavra eterna, O Verbo que se fez carne, o evangelho de Deus. Nele, a Palavra torna-se pessoa. Nunca ninguém viu Deus. O Filho O deu a conhecer: “Quem Me vê, vê o Pai”. Portanto, Jesus é a Palavra que se tornou sacramento do Pai. Ele é o evangelizador por excelência e o sacramento original, que está na origem de todos os sacramentos. “Transmite as palavras de Deus e consuma a obra de salvação que o Pai lhe confiou…Com a sua presença e manifestação pessoal, com as suas palavras e obras, sinais e milagres e sobretudo com a morte e ressurreição, aperfeiçoa e completa totalmente a revelação… DV 4).

Da mesma forma, enviou os apóstolos a pregar, a baptizar e a realizar sinais. “Ide ensinai… baptizai…ensinai-as a cumprir” (Mt 28, 19-20). Três momentos dinâmicos com um encadeamento próprio: anunciar a Palavra e despertar a fé; celebrar o dom de Deus no Baptismo e nos outros sacramentos; pôr em prática o evangelho (pela vida em comunidade, pelo serviço, pelo testemunho.) Também os apóstolos pregavam por palavras e realizavam sinais que credibilizavam e concretizavam a mensagem (cf Act 14,3). A celebração dos sacramentos faz sentido num contexto de fé e a fé nasce da pregação.

b) Na história da Igreja, a pregação da Palavra e a celebração dos sacramentos sempre foram entendidos como uma unidade com dois aspectos complementares, o mesmo processo de realizar a missão em dois pólos. A evangelização conduz ao encontro com Deus no sacramento.. A celebração dos sacramentos, por sua vez, evangeliza. A evangelização prepara e faz-se na liturgia.

Segundo Santo Agostinho a palavra é sacramento audível e o sacramento uma palavra visível. A liturgia, sobretudo nos sacramentos, contém palavras, elementos da vida e gestos ou ritos. A Palavra de Deus tem força sacramental (Is 55, 10-11). Não é apenas um meio de comunicar, como a palavra humana. É uma forma de presença e da acção de Deus no meio do Seu povo. O sacramento, por sua vez, tem força evangelizadora. É um sinal visível que indica ou aponta para uma realidade invisível. Pelo rito e pela palavra realiza o encontro com Deus que dá sentido e salva a vida humana: “Sempre que isto realizardes anunciareis a morte do Senhor” (1Cor 11, 26).

Houve, no entanto, nalguns períodos históricos, acentuações unilaterais: Católicos em algumas épocas realçavam parcialmente eficácia dos sacramentos, (padres que mal sabiam latim para celebrar ou a fórmula da absolvição). Face e esta ignorância levantou-se a reforma de Lutero que acentuou a pregação do evangelho e descurou a celebração dos sacramentos. Chegámos, assim, a duas acentuações parciais: De um lado os ritualistas, do outro os evangélicos. Não esqueçamos que a família e o ambiente social e escolas transmitiam a doutrina e alguma formação (para se confessarem tinham de saber a doutrina. E todos tinham de se confessar)

A forma como os cristãos ortodoxos exprimem e cultivam a sua fé dá que pensar na associação entre a liturgia e a evangelização. Cirilo e Metódio, os evangelizadores do mundo eslavo, criaram o alfabeto eslavo, traduziram a Bíblia e a liturgia para eslavo, tiveram aprovação do Papa para adoptar a liturgia eslava e criaram uma cultura que serviu de mediação para a evangelização. Morreram em 869 e 885. Um dos frutos, foi a conversão de Vladimiro de Kiev (988). Conta uma lenda que mandou emissários a observar as quatro religiões monoteístas (muçulmana; judaica; cristã romana e cristã bizantina) e optou pela bizantina (Santa Sofia). Os Ícones, os cânticos, a liturgia no seu conjunto, convenceram os eslavos. Ainda hoje a catequese nos países ortodoxos realiza-se predominantemente através dos ícones.

c) O Concílio Vaticano II encaminhou para uma ligação mais profunda da liturgia e da palavra (Cf DV 2: a revelação realiza-se por palavras e acções: as palavras proclamam as obras e confirmam a doutrina. Afirmou, na verdade, que a liturgia não esgota toda a acção da Igreja mas constitui o momento culminante para onde se encaminha a acção da Igreja (SC 10). Para que os fiéis possam viver a liturgia é necessário que sejam chamados à fé e à conversão (Cf SC 9) “Como hão-de invocar Aquele em quem não acreditam? Como hão-de acreditar se ninguém lhes prega? (Rm 10, 14-15)”. Assim, primeiramente, a Igreja deve anunciar a mensagem de salvação aos não crentes para que conheçam o Único Deus verdadeiro e Seu enviado Jesus Cristo e se convertam de seus caminhos fazendo penitência (Cf SC 9 e 10). No decreto sobre o ministério dos presbíteros (PO 5) afirma que a Eucaristia aparece como a fonte e o cume da evangelização.

Na nossa realidade pastoral, por vezes, celebramos os sacramentos sem evangelização. Sem conhecer minimamente a revelação de Deus, que desperta e fundamenta a fé, os sacramentos aparecem como ritos sociais em vez de encontros com Deus. De facto, as motivações de muitos candidatos aos sacramentos, são, frequentemente, sociais, culturais ou antropológicos. Devíamos primeiramente evangelizar e depois baptizá-los? Os sacramentos, entendidos como prolongamento e actualização da acção evangelizadora e sacramental de Cristo, supõem a fé mas também a alimentam, fortalecem e exprimem por meio de palavras e sinais (Cf SC 59). Por isso, se chamam sacramentos da fé.

Como Cristo, a igreja é “sinal e instrumento de união com Deus” (LG 1). Enquanto sacramento de Cristo, a missão da Igreja é anunciar e comunicar a salvação de Jesus Cristo de duas formas: a) por um lado, ser sinal, mostrar, dar visibilidade; b) comunicar, ser instrumento ou canal da graça. Realiza esta missão evangelizadora através de várias actividades: pelo primeiro anúncio da fé e pela catequese; pela caridade e pelas actividades sociais; pelo estilo de vida dos fiéis e dos seus pastores (presbíteros e bispos e santo padre); pela liturgia; pelas devoções populares. Em toda a actividade deve mostrar-se uma Igreja orientada à missão. Assim, na Igreja todas as actividades são sacramentais, tornam visível a Igreja sacramento fundamental. Por outro lado, todas as actividades são evangelizadoras pois anunciam a salvação.

Como metodologia para conjugar harmoniosamente a evangelização e a celebração da liturgia, a Igreja, após o concílio, indica a pedagogia catecumenal, que se fundamenta na imagem bíblica do caminho. A evangelização é como um caminho que progride para a descoberta e união com Jesus Cristo, como o caminho dos discípulos de Emaús. O caminho faz-se caminhando, descobrindo e experimentando ao vivo a presença, e a amizade com o Senhor pela Palavra da Escritura, pela oração, pela celebração dos sacramentos, pela vida comunitária. Um caminho tem uma meta, etapas, ritmos. A meta é reproduzir em nós a imagem do Senhor Ressuscitado; as etapas principais são: primeiro anúncio; catequese; celebração dos sacramentos; comunidade. Treinar-se no caminho é dar passos e adquirir ritmos progressivamente: a capacidade de escuta da palavra, o ritmo da oração, a realização de ritos, a celebração da eucaristia, a prática da caridade e do serviço.

Outra aquisição que traz enriquecimento a esta relação sacramentos – evangelização, é a nova consciência da prioridade da evangelização, a partir do Sínodo de 1974 e da Exortação Apostólica “Evangelii Nuntiandi” (EN), (Paulo VI 8 de Dezembro de 1975) que difunde uma perspectiva global de evangelização e indica várias vias para a realizar (testemunho de vida; pregação viva; liturgia da palavra; catequese; “media”; contacto pessoal; sacramentos; religiosidade popular).

2. ”Meus olhos viram a salvação”

Concluímos a necessidade actual de tornar visível a salvação. Num ambiente de descrédito das muitas palavras, não basta anunciar a fé por palavras. É preciso mostrá-la por obras e sinais, dizia já São Tiago. Que sinais são hoje mais significativos? Como sair para a praça pública e dar a conhecer a salvação? Podemos valorizar muitas imagens de vida cristã; o património artístico; cânticos (Taizé encanta e aproxima os jovens); devoções populares, etc.

Como fomos iniciados na fé? Rezando e celebrando. De facto, aprendemos melhor quando fazemos e experimentamos. Do que ouvimos, nem tudo entendemos e quase tudo esquecemos. Do que vemos, recordamos alguma coisa. Mas aprendemos, sobretudo, pela experiência. Por isso, é tão importante recuperar o método catecumenal que valoriza os exercícios de vida cristã. Aprendemos o caminho do Senhor caminhando, exercitando passos, adquirindo ritmos. Notamos com pena que, após tantos anos de catequese de infância e adolescência, quando chega a altura do Crisma, muitos candidatos não adquiriram ainda os ritmos de vida cristã.

Ora a liturgia bem celebrada pode ser uma valiosa escola de formação e de evangelização. “Quando se consegue através da catequese, pôr em contacto com a liturgia, abre-se aos fiéis uma fonte perene que lhes proporciona alimento espiritual para vida inteira” (Jungman).Na realidade a liturgia foi ao longo de séculos a grande escola de formação cristã e de cultura do povo de Deus.

A Constituição Litúrgica refere esta dimensão catequética da liturgia: “A sagrada liturgia, embora seja principalmente culto prestado à Majestade divina, possui também uma grande capacidade para instruir o povo fiel. Deus fala ao seu povo…o povo reunido reza e canta ou actua…os próprios sinais visíveis… são elementos que anunciam o evangelho” ( SC 33). Por isso, é necessário ter presente:

a) A liturgia é uma epifania da Igreja. Que imagem de Igreja transmite uma assembleia dominical habitual das nossas paróquias, a quem vai poucas vezes e pouco conhece (por ex. aos que assistem por dever de ofício)? Que imagem queremos que transmita? É uma reunião de crentes reunidos pela mesma fé à volta do Senhor Ressuscitado?

Precisamos de criar espírito de assembleia, com comunicação, com acolhimento e integração, para que a Igreja seja como uma família onde cada pessoa se sinta em casa. O ambiente de comunidade ajuda a vencer a solidão, o anonimato, a estranheza das sociedades modernas.

A participação activa, consciente a frutuosa da assembleia precisa de grupos que sejam fermento de participação pela sua sensibilidade e formação litúrgica. Por isso, o presidente tem como uma das suas tarefas principais a escolha e formação de ministérios litúrgicos (grupo coral; leitores que sejam compreendidos; acólitos; zeladores; ministros da eucaristia, etc.). São importantes grupos de acolhimento bem como o acolhimento do celebrante à porta do templo.

Nesse sentido, recomendo formar, em cada paróquia, uma equipa de liturgia que assuma a responsabilidade de animação da liturgia, faça uma reflexão sobre estes pontos e programe, com o pároco, um projecto de renovação da liturgia.

b) Catequese e liturgia. A catequese conduz e realiza-se na liturgia. Sem liturgia a catequese é incompleta. A liturgia realiza ou actualiza o que a catequese anuncia. Os grandes acontecimentos da história da salvação acontecem, actualizam-se na liturgia. Por pouca sorte, muitos catequizandos faltam à celebração dos grandes acontecimentos da salvação (nascimento de Jesus, morte e ressurreição) por estarem em férias. Sem liturgia falta à catequese acabamento, vitalidade, experiência.

Da mesma forma a liturgia sem catequese é ritualismo, cerimonial exterior. A catequese deve dirigir-se a todas as idades. Todas as paróquias precisam de formação de adultos ou de oração ao longo da semana. Estes grupos são o apoio e o fermento para uma liturgia viva. Podem ser grupos da “lectio divina” ou vocacionais ou outros.

Dentro da necessidade de catequese devemos realçar a necessidade de preparar os sacramentos. Desconhece-se, por vezes, a riqueza das introduções dos Rituais dos Sacramentos. Para evangelizar é necessário estudá-las bem. Da mesma forma as orientações diocesanas, a sair em breve, precisam de ser estudadas.

3. Como tornar evangelizadora a nossa liturgia?

Trabalho em grupos e plenário

1.Quais as principais lacunas da nossa liturgia? Como ultrapassá-las?
2.Como deve ser a liturgia evangelizadora? Como caracterizamos uma liturgia bem feita, com beleza e espiritualidade?

Conclusão: Nós contemplamos de rosto descoberto a glória do Senhor como diz Paulo: “Contemplando a glória do Senhor com o rosto descoberto vamo-nos transformando à sua imagem com esplendor crescente sob a acção do Espírito” (2 Cor 3, 18). Deus criou o homem à sua imagem. Essa imagem porém está embaciada. Como um espelho precisa de ser limpa, restaurada e purificada para se tornar mais nítida. É a contemplação do rosto de Cristo que a aperfeiçoa. Como num espelho, dizia S. Francisco de Borja. A glória ou esplendor da santidade de Cristo passam ao crente. A contemplação do rosto de Cristo opera uma espécie de transfiguração espiritual.

Como Cristo na transfiguração precisamos de subir ao monte para orar para entrar em comunicação profunda com Deus. Quando celebramos a liturgia, sobretudo a Eucaristia, encontramo-nos com a glória do Senhor como aconteceu aos três apóstolos Pedro, Tiago e João. Subir ao monte para orar é deixar o ruído, a dispersão e concentrar-se na presença invisível de Deus, escutar Cristo como Palavra definitiva de Deus com a ajuda de Moisés e Elias. Não deixamos a vida nem nos desviamos do percurso. Mas, subindo até Deus, vemos a vida com outros horizontes, na luz de Deus, e encontramos o sentido e a força para continuar o percurso que passa pela cruz para chegar à glória. Levamos connosco o nosso quotidiano, as nossas fraquezas e misérias, a nossa boa vontade e colaboração, esperando que Deus aceite a nossa vida e as nossas obras e as torne agradáveis e luminosas pelo poder da ressurreição de Jesus e pela força do Seu Espírito. Como Moisés e como Cristo subiram ao monte para comunicar mais profundamente com Deus e nos seus rostos resplandeceu a glória do Senhor, também nós, se contemplamos a glória do Senhor na liturgia, regressaremos ao mundo com sua glória a resplandecer no nosso rosto. Assim podemos desempenhar a missão: “Brilhe a vossa luz diante dos homens”.

+ Manuel Pelino Domingues, Bispo de Santarém

Fonte: Diocese de Santarém