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Homilia do Bispo de Santarém na Missa com Ordenação Diaconal

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A ordenação do Ricardo Pinto para diácono da Igreja diocesana de Santarém é um motivo de alegria e de acção de graças. Recebemo-lo com a esperança de que venha a dar uma colaboração preciosa na missão tão vasta da Igreja, onde muitos trabalhadores são necessários e apreciados.

A vocação do diácono lembra-nos que a fé cristã é uma vocação a servir. Convida-nos, portanto, a viver o nosso cristianismo em atitude de serviço. Como Cristo se fez servo também nós, seus discípulos somos chamados a servir: servir o evangelho, servir os pobres, servir Deus e os homens. Servindo enriquecemos os outros e damos riqueza e significado à própria vida.

Dispor-se a servir quando a tendência geral é servir-se, fazer-se servo quando o sonho comum é ser senhor, torna-se um desafio que exige humildade, consciência esclarecida e muita confiança em Deus. Por isso, manifestamos o nosso aplauso e o nosso apoio ao Ricardo Pinto pela sua coragem e entrega nas mãos de Deus.

Saúdo todos os presentes que quiseram associar-se a esta celebração de ordenação. Manifesto o meu reconhecimento aos presbíteros, estimados colaboradores na orientação do povo de Deus e, entre eles, agradeço especialmente aos formadores dos nossos seminaristas; saúdo também os diáconos permanentes; os religiosos (as); os nossos seminaristas, no início da semana a eles dedicada; os fiéis em geral, irmãos na mesma fé e na mesma esperança, membros do povo santo de Deus, empenhados em ser luz do mundo e em pedir ao Senhor que envie suficientes operários para o serviço do evangelho; manifesto a minha gratidão aos fiéis das paróquias entregues ao cuidado pastoral do P. António Vicente, P. Ricardo Madeira e agora dos P.es Vitor Alcobia e Luís Pedro, que têm ajudado o Ricardo Pinto a crescer e a amadurecer na vocação.

Dentro de uma Igreja vocacionada ao serviço compreendemos com mais profundidade o perfil do ministério do diácono, primeiro grau do sacramento da ordem. Referido desde as origens da Igreja, faz parte da sua identidade, integra a riqueza dos carismas do Espírito. “Escolhei entre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, pedem os apóstolos aos fiéis de Jerusalém, e confiar-lhes-emos a tarefa do serviço das mesas. Quanto a nós entregar-nos-emos assiduamente à oração e ao serviço da Palavra” (Act 6, 3-4). O serviço das mesas ou da partilha de bens concretiza a preocupação dos crentes de que todos tenham pão, de que ninguém passe necessidade. Cabe aos diáconos a tarefa de fazer apelo à generosidade dos fiéis e proceder à distribuição dos bens pelos mais necessitados de modo que haja justiça na partilha e a ninguém falte o necessário. A atenção aos pobres caracteriza o estilo de vida das comunidades primitivas. “Felizes os pobres porque deles é o Reino dos céus”, proclamou Jesus. São felizes porque são amados e apreciados pelos cristãos que com eles repartem o pão e lhes fazem sentir o amor de Deus.

Cabe aos diáconos incentivar e dar visibilidade à partilha, tornando-se, assim, sinais da ternura de Deus. A caridade é o agir mais genuíno da fé. Mas nos tempos de hoje, tão marcados pelo egoísmo e pela perspectiva individualista da posse de bens, a caridade precisa de ser desperta. Por isso, pede-se aos diáconos, aos pastores e aos educadores da fé que eduquem para o dom. Se a atitude do dom não for cultivada, esquece-se, é abafado pelo materialismo tão forte no ambiente, pela ganância, pela fruição fechada no comodismo pessoal.

O serviço das mesas está associado ao serviço da palavra. De facto, desde o início os diáconos dedicam-se à pregação, como é realçado pelo livro dos Actos dos Apóstolos. Na verdade, nem só de pão vive o homem mas também da palavra de Deus. O pão da palavra, para os que tem fome e sede de verdade e de luz, é tão importante como o pão material. Assim, recomendamos também aos diáconos que incentivem e preparem o povo de Deus para participar activamente no serviço da palavra.

A tarefa de servir não é apenas para o diaconado. É pedida a todos os fiéis e fica associada para sempre ao ministério ordenado. Nós padres, seremos sempre diáconos mesmo depois de passarmos a outros graus do sacramento da ordem. Por isso, no Ano sacerdotal para renovar a fidelidade do sacerdócio, necessitamos de cultivar as virtudes relacionadas com o serviço: a humildade, a afabilidade, atenção aos outros. Servir é um exercício constante de despojamento pessoal, de abnegação, de entrega sempre renovada. A fidelidade de Cristo manifesta-se no gesto supremo de caridade com que se despediu: tirou o manto e lavou os pés aos apóstolos. A fidelidade pede também aos sacerdotes que deitem fora o manto de importância e se abaixem para lavar os pés do próximo, como Jesus na última ceia.

As leituras bíblicas reforçam o convite a esta atitude de humildade e de doação. No evangelho Jesus chama a atenção para imagens muito concretas e expressivas que mostram as tentações dos mestres religiosos de todos os tempos: dar-se ares de importância pelo seu saber da Lei de Deus. Os Escribas dedicados às Sagradas Escrituras julgavam-se com direito a lugares de relevo e a ter um reconhecimento social. Em vez de servir, serviam-se da religião. Jesus denuncia a vaidade deles, fonte de arrogância e condena o abuso de se aproveitarem dos humildes em proveito próprio. A tentação dos escribas é uma tentação de todos os tempos.

Em contraste, Jesus coloca como exemplo, a pobre viúva que deitou no tesouro do templo apenas duas pequenas moedas. Ofereceu, porém, tudo o que tinha numa atitude de confiança ilimitada em Deus. Como a viúva de Sarepta que confia e reparte com o profeta Elias o pouco alimento que tem. São estas viúvas que nos são apresentadas como mestras do caminho da fé e da atitude de serviço, de humildade e de caridade. Exemplo oportuno para os Diáconos e para todos os discípulos de Cristo chamados a servir como o mestre. Entreguemos também toda a nossa vida no tesouro da comunhão dos santos. Mesmo pobre, vale pela atitude de generosidade e de confiança em Deus e, unida à oferta de Cristo, contribui para a salvação de muitos.

Na atitude de entrega total e confiante nas mãos de Deus, compreendemos o significado da promessa do celibato, do desprendimento e da obediência. Quem renuncia a si mesmo encontra uma liberdade mais profunda. Quem tudo dá tudo recebe. Quem entrega a sua vida e se sacrifica ao serviço do evangelho, encontra a verdadeira vida. Pela ordenação diaconal inicia um percurso a fazer na fidelidade, a retomar constantemente em ordem à configuração com Cristo Servo e Pastor. Deus não falta com a sua graça para que a imagem de Cristo se torne visível no rosto dos consagrados. Rezemos ao Senhor para que com a Sua ajuda esta obra seja levada a bom termo por todos os ordenados.

+ Manuel Pelino, Bispo de Santarém

XXXII domingo do tempo comum.

Fonte: Diocese de Santarém