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Em nome de Jesus

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A mendicidade é algo que sempre me perturbou. Certo dia, estando eu a caminho do templo, juntamente com Pedro, para ir rezar, cruzámo-nos com um paralítico, que, sentado no chão, implorava uma esmolinha. Fez-me impressão a forma como se dirigia a nós, preocupado em não nos tocar, para que não ficássemos impuros, como ele acreditava ser.

Jesus e o mendigoTodos afirmavam que o mendigo tinha aquela deficiência porque era muito pecador, ou para pagar os pecados da sua família. Dado que não era perfeito, pois não conseguia deslocar-se, significava, no entender daquela gente, que Deus estava zangado com ele e por isso o castigava. Que sandice!

 

O peso da rejeição

A verdade é que o indigente nem sequer ousava levantar os olhos para nós, de tão mal que se sentia. Os outros faziam-no crer que ele era lixo da sociedade, que não era ninguém, apenas estava ali. Esmolar até ao fim dos seus dias, diante da indiferença ou da rejeição dos seus semelhantes, representava a mais dura sentença para alguém que carregava uma culpa que não tinha! Ali estava um ser humano, salvo por Jesus, como eu, como Pedro, como todos os outros apóstolos e pessoas dispostas a acolher esta salvação no seu coração e na sua vida, à espera de uma dádiva que o ajudasse a sobreviver, enquanto os seus sonhos envelheciam com os anos. Virei-me para Pedro e perguntei:

– Tens aí algum dinheiro?

Ele respondeu-me:

– Porque perguntas o óbvio, João? Bem sabes que não trago nada comigo.

Na realidade, nós não éramos muito abonados, e depois de termos aprendido de Jesus o valor dos verdadeiros bens, até nos esquecíamos que precisávamos de dinheiro para viver.

Ainda nos custava a assimilar que à entrada de uma porta que dava pelo nome de Formosa se encontrasse um homem naquelas condições. Reparámos que muitos dos que entravam e saíam o ignoravam, fingiam não o ver ou, simplesmente, passavam ao largo. Outros, na tentativa de apaziguar uma consciência mal formada que acusava uma piedade estéril, olhavam de esguelha enquanto atiravam uma ou duas moedas, da mesma maneira que se atira um osso a um cão que se suspeita que possa morder. Não, não aguentávamos mais aquele cenário da mais completa desolação! Parámos à frente do pedinte, fitámo-lo, e Pedro decretou com voz forte:

– Olha para nós!

Ele estava com tanto medo que não reagiu de imediato. Então, Pedro repetiu:

– Olha para nós!

O bem maior

O paralítico, embora receoso, arriscou levantar um pouco a cabeça. Ao perceber que não o queríamos insultar nem fazer qualquer espécie de mal, fixou-nos nos olhos, na expectativa de que lhe déssemos o que nos havia suplicado: um socorro monetário. Mal ele sabia que estávamos mais «tesos» do que ele! Todavia, Pedro foi capaz de ler, naqueles olhos tristes e sofridos, uma necessidade muito maior do que aquela que os lábios proferiam. Sendo assim, e como sujeito prático que sempre foi, não esteve com rodeios. Sem nunca desviar o olhar, disse-lhe:

– Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho, dou-to: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda!

Tomando-o pela mão direita, ajudou-o a levantar-se e ele manteve-se de pé, adquirindo cada vez mais sensibilidade e força nos pés, tornozelos e pernas. Pôs-se aos saltos, a agradecer e a louvar a Deus.

Eu fiquei um bocadinho encavacado com aquele alvoroço todo, porque, de repente, estávamos cercados de uma multidão de curiosos, mas depressa compreendi que aquele milagre tinha acontecido para enaltecer a glória de Deus e para que todos acreditassem no seu poder e bondade. Afinal, as palavras tinham sido ditas por Pedro, mas eu e toda a comunidade dos crentes também participámos, já que ele não ordenou: «Olha para mim!», mas antes: «Olha para nós!»

A cura total

Entendi, depois de observar a felicidade do ex-paralítico, que o prodígio não ocorreu somente em relação à capacidade de locomoção; de facto, para além da cura física, ele havia ficado curado emocionalmente. Já não se considerava um sujo, conformado com a pouca sorte com que nascera, mas sentia-se efectivamente filho de Deus, razão por que Lhe cantava sem cessar. Um singelo gesto de atenção fez renascer aquela criatura para uma vida totalmente nova...

Isto era demasiado grande para ser obra nossa! Portanto, ante o espanto dos presentes, Pedro, que era mais desinibido, falou-lhes com entusiasmo, explicando que, afinal, aquele Jesus que eles tinham entregado a Pilatos, e cuja crucificação reclamaram, continuava tão vivo como sempre. A prova disso era o que acabavam de testemunhar.

Eu continuava maravilhado e meio anestesiado com aquilo tudo. Indaguei:

– Pedro, o que achas que vai suceder agora?

– João, aquele homem já não está prostrado! Foi libertado do seu cativeiro; será reconhecido como pessoa.

– Sabes, Pedro, ainda bem que não tínhamos nada de material para lhe dar. Se assim fosse, tê-lo-ia gasto e permaneceria paralítico até à morte. O Senhor sabe o que faz!...

E com a alma a transbordar de alegria, seguimos o nosso rumo.

Para reflectires

Lê na tua Bíblia Actos dos Apóstolos 3, 1-16.

  • Pedro curou o paralítico com o seu próprio poder?
  • O que significa ter verdadeira compaixão por quem sofre?
  • Se as pessoas não virem que nos preocupamos com elas, darão ouvidos ao que lhes dizemos?
  • O que significa para ti dar esmola?
  • Tens aproveitado as oportunidades que Deus te tem dado para ajudar os mais necessitados (não só de dinheiro ou bens primários, mas também de carinho, tempo, atenção) e seres, deste modo, testemunha do Evangelho de Jesus?

Por: ISABEL ROSÁRIO, Serva de N.ª S.ª de Fátima | Revista Audácia | www.audacia.org

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